Tereza Virginia

Budapeste no aeroporto ou o aeroporto em Budapeste: notas sobre a leitura do livro de Chico Buarque

Texto publicado no Caderno de Cultura do Diário Catarinense em 10 de dezembro de 2005.

Fonte: Propaganda Penguin Books: Saatchi & Saatchi, Singapore

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Fui dar em Budapeste graças ao atraso imprevisto de uma viagem de Florianópolis ao Rio, através do espaço aéreo. A companhia ofereceu desculpas desajeitadas quanto ao cancelamento do vôo agendado e a única opção foi ficar vagando pelo pequeno aeroporto da capital catarinense até o horário do avião em que havia sido alocada, sem prévio aviso.

Apesar de toda irritação causada pelo episódio, é preciso dizer que, naquele dia, fui salva pela visão, através da vitrine da livraria, do volume em tom mustarda: Budapeste, o romance de Chico Buarque.

Comprar Budapeste não foi uma decisão que tomou mais que alguns segundos. Mas este tempo foi perpassado pelo conhecimento prévio do talento musical de Chico, que se impõe na cultura brasileira através de seu timbre masculino indistinguível e das inúmeras interpretações de canções que o inscrevem como um dos grandes autores da poesia em língua portuguesa. Afinal, o fazer poético de Chico Buarque, a singularidade com a qual maneja as palavras enquanto cancionista é algo inegável.

Para ler Budapeste, eu lançava mão de um repertório que se delineava a partir de algumas certezas prévias. Primeiro, estava diante de uma assinatura que assegurava o talento de ficcionista do poeta, afirmado em uma carreira de dramaturgo paralela a de compositor, com as peças Roda Viva de 68, Gota d’água de 75, Ópera do malandro de 79. Segundo, eu trazia para a leitura de Budapeste a convicção de que o gosto pela narrativa, que o compositor esboçara com Fazenda modelo de 74, já havia se transformado para Chico em um projeto com marcas diferenciais em sua obra, com a publicação dos romances Estorvo em 1991 e Benjamin em 1995.

O fato é que nos poucos segundos em que comprei Budapeste, sem me dar conta, cruzava uma linha divisória de extrema importância na interpretação da obra de Chico Buarque. Não apenas a leitura do livro salvou do marasmo aquelas longas horas de espera, como as transformou na força motriz de uma reflexão posterior que aqui esboço.

Era dezembro de 2003 e Budapeste já estava em sua segunda edição. O sucesso editorial poderia justificar-se pelo nome que assinava a capa e que, certamente, levaria o livro a definir-se enquanto best seller, no sentido mais pejorativo do termo: aquele que se aplica a livros de fácil degustação por um público pouco exigente. Era fim de ano em um pequeno aeroporto lotado de transeuntes de múltiplos destinos e o nome de um artista brasileiro tão respeitado, exposto ali naquela vitrine, estava às margens de encontrar sua definição como pura e tão somente “literatura de aeroporto”.

Mas aí é que está: Budapeste é, a meu ver, “literatura de aeroporto”. E escrevo estas notas com o objetivo de defender esta idéia desafiando tudo que possa haver de negativo na expressão. Em primeiro lugar, em seu aspecto formal, Budapeste se torna um daqueles livros que se oferecem a uma leitura contínua e atenta que serve a quem precisa passar o tempo. Em segundo lugar, Budapeste encontra no “aeroporto”, enquanto espaço propício ao fugaz e transitório, a própria metonímia de sua temática maior: a desterritorialização.

Se os romances anteriores de Chico me levaram a perceber apenas que, no compositor, havia se instaurado um renovado impulso de realização estética, a leitura de Budapeste, em sua vocação para formar a trilogia, trazia em si uma destinação maior: a de possibilitar a distinção definitiva entre o projeto narrativo de Chico Buarque, inaugurado na década de 90, e todo o projeto anterior de sua obra, principalmente a musical, a partir mesmo de uma linha divisória que se delineia entre os contextos moderno e pós-moderno.

Dentro desta moldura, o Chico compositor e dramaturgo dá continuidade a um projeto profundamente relacionado aos discursos dedicados à configuração da identidade cultural brasileira. Mas o Chico romancista da década de 90 nos coloca diante de um projeto outro, profundamente relacionado a uma reflexão sobre a contemporaneidade que o faz participar do debate em torno da cultura pós-moderna. Sob este prisma, Chico passa a inscrever-se em uma linhagem literária que se relaciona à perda de noções como referência, tempo e subjetividade, esvaziamento múltiplo que parece simultaneamente angustiar e configurar o humano desde seu encaminhamento para esse terceiro milênio, carente de utopias.

Por outro lado, é no próprio espaço do “aeroporto” que se inicia a narrativa do livro de Chico Buarque, ou melhor, de forma semelhante às primeiras linhas deste artigo. A partir daí, a narrativa expõe, por trás de suas artimanhas, capazes de enredar, a história de um ghost writer cindido entre cidades e discursos. Neste sentido, o aeroporto se define como o espaço neutro e transitório, perpassado por culturas diversas, cenário ideal para o protagonista do romance, José Costa. O livro de Chico se oferece, então, a reflexões sobre os deslocamentos entre língua e território, pátria e identidade.

Em Budapeste, o aeroporto surge de forma fugaz como o ponto de passagem entre cidades e capítulos, como aquilo mesmo que se elide. Ao fim do livro, o personagem passa de uma cidade a outra no intervalo em que o leitor vira as páginas. Mas a fugacidade do aeroporto serve como imagem perfeita para aludir a esse ponto neutro e vazio que demarca a condição do narrador: a fronteira imaginária entre Rio e Budapeste, o próprio não-lugar, aquele que remete ao duplo sentimento de exclusão de José Costa: estranho ao Brasil, pelo domínio profissional do idioma; estranho a Hungria, por sua condição de estrangeiro e pelo contato de aprendiz com o idioma. O aeroporto é o lugar de suspensão, o espaço da espera que configura o acaso do primeiro contato com a língua húngara. É também imagem perfeita para esse entrelugar em que se dá o esvaziamento de identidade na língua portuguesa e a aprendizagem da língua estrangeira.

Chico remete a reflexões que transcendem a problemática da brasilidade e se direcionam às novas configurações de fronteiras no terceiro milênio. Onde se problematiza a origem da narrativa e a identidade do narrador emerge o humano em sua relação mais primordial com a palavra, através da poesia. Budapeste é um livro sobre fantasmas, esses outros que atravessam desde sempre nossa relação com a linguagem.

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